Quarta-feira, Outubro 6

De volta 

Mordo o lábio e passo suavemnte a língua sobre o cosmos. Num momento circular, quase calculado, a rondar a sabedoria, maquinal, com ondulações fraquejadas.
Nem sei bem porque o faço. Arrogância talvez. Vontade que reparem que me quero ir embora. Talvez também por isso a minha perna tenha espasmos repentinos.
Quero ir para casa e ver se chegou um beijo teu. Se debaixo dos lençois há uma memória tua. Se entre a roupa lavada há um cheiro teu. Se tem o teu abraço em cada página voltada. Ou uma gargalhada.
Sem ti tudo é mais seguro. Previsível. Os dias perseguem-se numa luta incessante de rotina gasta. Por isso já não corro. Não gosto. Mesmo já não tendo a mão presa a nada. Porque já não tenho medo de cair.
Olho a minha mão. Entendo agora o porquê de a agarrares. A sua forma é perfeita, assim como a do meu braço ou da miha barriga. Das minhas sombrancelhas alinhadas e das unhas arranjadas. Quanto tempo que perco a utilizar a palavra "eu".
Quanto tempo inútil este de gastar na construção da minha máscara todos os dias. Nesta máscara que habita na violência do mundo fora de mim, na ventania que se cria na quimera do fim da vida, sob todas as coisas serenas e voluptuosas.
Mas mastigo cada palavra mal digerida. E sorrio. Porque em cada esquina há um momento teu. Em cada verso riscado há um lugar que o tempo não apaga nem com o amarelar da humidade dos anos de espera nem com o negro da água infiltrada no tecto nem tão pouco com os sons que os sinos não voltaram a tocar.
Não vou conseguir. Voltar. Fingir uma vida que não é a minha. Uma vontade de ficar que não existe mais. Mas depois... lembro que tu acreditas. Com o teu ar intelectual de quem julga saber tudo. De quem julga conhecer o mundo através dos livros com cheiro a mofo, das conversas de café no bairro onde cresceu... E julgas conhecer a efemeridade da vida apenas porque lhe reconheces o significado enquanto palavra. Com essa inocência que te torna tão único e intocável, tão invulgar perante os actos, por entre as palavras complicadas de soletrar, por entre o bater das pálpebras. Eternamente imóvel, mas fugaz.
Mas aqui me mantenho. Num etenro regresso à aprendizagem. ver novos rostos surgirem no horizonte e os velhos se desvanecerem nos trilhos da existência. Os medos e os segredos. Os sustos e a intimidade.
O voltar a ser criança quando se vê rodeada de cores. De desconhecido. De alma. Na sua mais simples forma.
Num regresso às aulas.

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Sexta-feira, Agosto 6

Adultos 

Vagueio como quem se procura. Sobre o chão tenebroso. Flutuante. Mascarado de cores.
Mais um aceno desnecessário. Volúvel. De tantos seres que se arrastam pela aurora com o azedo sacrifício de viver. De sentir a loucura das palavras. Da sua inutilidade.
Param. Observam. O nada. O vazio. Mas fingem ver. Fingem interessar-se. Mas o que querem mesmo é fugir de si, dos outros. Enterrar a vergonha longe de quem possa descobrir. Esconder os pecados dos olhos puritanos.
Procuram uma razão para Deus. Para acreditar. Para manter uma infinidade de práticas e cerimónias coreografadas há milénios mas desgastadas pelo uso. Para cruzarem a perna educadamente. E roçarem a arrogância. Para manter o estranho desconfortável andar calculado sobre telhados de vidro e azulejos de cristal preciosos.
Estão cansadas. Renderam-se. Têm as articulãções saturadas. Estão continuamente entregues à sensação de tédio.
Ansiosas pela infinidade de viagens. Pelo correr das crianças abandonadas. Pelo viver rompendo a aurora arranhado e fascinado mundo de incertezas.
Destroem-se constantemente. E sonham. Mas todos os dias vestem a sua pele outra vez, isoladamente.

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Quarta-feira, Maio 12

Carta direccionada 

As cartas são sinais de separação. Pelo menos pela necessidade de as escrevermos. Por isso não te admires de algum laconismo nas minhas palavras.
Mas espera.
Deixa-me fazer-te existir antes de existires. O que existes para mim não é decerto o que és neste momento... O que me existes é o que em mim te faz exisitr.
Tens inexistentes por companhia e a comodidade de não seres ainda. Eu não. Estou viva para mim, sou ainda. E isto de haver mortos à minha volta não é um modo cómodo de vida.
Faço-te existir na intensidade absoluta da beleza, na eternidade do teu sorriso. Faço-te existir na realidade da minha palavra. Da minha imaginação.
Mas não existes ainda. Simplesmente porque não te conheço.
Posso inventar-te agora como quiser.
E estou quase morta também.
Realizo a vida em torno de uma ilusão.
Qualquer uma.
Possivelmente serás moreno, minúsculo, olhos pretos e vivos. A correr, sempre atrasado, com o jornal a escorregar pelas mãos suadas, e ao vento, os teus cabelos loiros esvoaçantes. Pois é, são loiros. Agitam-se na corrida como se fossem o teu triunfo. E as pernas engrossadas erguem-se alternadamente na corrida sem razão.
Explode em pedaços todas as partes do teu riso. E de súbdito, ficas assim imóvel. Instantâneo à luz. A boca enorme cheia de alegria e visível ao sol. E os olhos rápidos cintilantes.
Fica-te assim. Não te mexas. Tenho tanto que dar uma volta à vida toda.
Não te movas. Sob a eternidade do sol. Uma malícia subita no teu sorriso. No teu olhar.
Conheces-me bem demais.
Um clarão à volta do deslumbramento. Irradiante fixo. Não te tires daí. Instante da minha desolação.
Tenho o que fazer agora. Mas não saias daí. De olhos oblíquos de um pecado futuro.
Fica-te assim. Até ao próximo sonho.

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Terça-feira, Maio 11

Paredes de papel 

Escrever é sentir o tempo imperdoável e mordaz de quem pensa...
É reconstruir o sofrimento do tempo incompreensível. Inalcansável por mais que nos esforcemos.
É contemplar uma ideia destruída... Um rascunho de medo transportado pelas palavras que arranham as paredes do estomâgo. Cheias de vontade de viver em nós. É a insegurança de emitir qualquer som reprovado.
É um refúgio.
E nesse instante de fuga da realidade e do que a vista atinge, sobrevoam palavras. Vãs. Cheias de vida e sem ela. Cheias de imagens fictícias. Lembranças vertiginosas. Silêncios escondidos. Que se esgotam no infinito. Assim como os pensamentos. Como as sensações.
Há ainda momentos grandes onde não cabe qualquer compreensão do mundo. Do espaço. Do tempo. Como roer as unhas. Ou enrolar o cabelo. Ou fumar um cigarro. Enquanto se olha uma parede branca.
Á espera...
De tudo. De nada.
Como se houvesse nada.
Até que a angústia e o desespero nos traga de volta ao real. Vencidos. Completamente convencidos. Convencidos de que vale a pena escrever. E viver.
E então, substituimos a parede branca por uma folha de papel. Desejosa de se voltar, amarrotar, rasgar. Ali, ao nosso dispor.
Ou então vamos procurar gente pelas ruas. Pessoas. Vida.
Os outros.
Sempre os outros que nos mantém.
A nós.

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Orgasmo 

Ai, aquele instante em que o meu corpo dispara pela mente até se esgotar enrolado na gravidade, num abandono leve e doce. Terno. Gentil.
E entretanto, as pernas tremem, batem uma na outra envoltas em movimentos descoordenados. Um tremor sobe pelas entranhas até ao êxtase da alma. Que a faz, por momentos, sossegar a luta constante em que se bate por entre os dias sombrios.
O momento tão esperado da suavidade das pálpebras a fecharem possuí uma mente misteriosa onde guardo os segredos do amor, imagens poéticas, palavras sussurradas, gritadas, emoções recheadas de fogo de artifício.
Mesmo que me embrenhe no próprio e no corpo de outrém nunca serei capaz de descrever o prazer quase atómico do contacto da pele. Da pele humedecida pela dor de viver. Como uma espécie de loucura...
Por isso procuro um descanso de mim própria no teu corpo. E tento descobrir o carácter do teu rosto eterno. O rosto eterno do amor. Ou da paz. Ou de algo que se aproxime dela.
Procuro a viagem da mentira. Da máscara. Das palavras. Das tuas mentiras que já fazem parte de mim.
Queria poder, pela loucura e pelo êxtase, chegar á tua alma. Mas em vez disso, permaneces... e sinto-te como uma doença. Que não morre nunca. Os braços não se mexem e a força não existe quando tenho de lutar contra a alma.
Quero-te assim, não na minha posse, mas como que dentro de mim.

E... quando saires... vou ter de pegar na minha vida outra vez?...
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Sexta-feira, Março 12

Dia de chuva, vida de chuva 

Vês um dia reduzido a água no desconsolo de teus olhos,
das tuas horas bem contadas e calculadas.
Vês somente a minha ausência
tecida com fios de névoa
com os meus dedos tacteando mapas,
tocando imagens, descobrindo locais.
Vês-me através dos lábios que absorvem o frio da gratidão
na insegurança que os meus olhos vão escondendo.
O meu rosto jaz luz velada de um céu opaco.
Sou detentora de todos
os teus dias chuvosos e espessos.
Na sombra do futuro olhas de longe, guardião de presságios,
o mergulho no abismo incerto,
o marulha da penumbra da minha primavera.
Nas ancas curvilíneas que o suor invade
com os complexos do desejo.
A chuva cai para que o meu corpo se transforme em cristais
com a leveza do vento afogando o prazer de um sexo túmido
que descansa no cimo de duas coxas erguidas em forma de pedestal,
onde se apoia a tua admiração.
A chuva cai e o sonho estremece
no afago das carícias
que a minha pele humedecida
jamais consentirá...
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Primeira vez 

Gosto de palavras.
Gosto até do som ao dizer "palavras".
As palavras são para mim corpos tocáveis, palpáveis, são sensualidades entranhadas.
Escrevo por isto mesmo. Porque gosto de palavras, gosto de como ficam bem quando conjugadas. Escrevo para me perder. Gosto da sensualidade que é perder-me e morder o lábio como uma virgem anónima e intocável.
Tantas vezes escrevo sem pensar, num devaneio externo e longíquo. Deixo que as palavras me façam companhia e me rocem o cabelo com intimidade.
Tantas vezes escrevo frases sem sentido e deixo-as fluirem mórbidas e melancólicas tal qual as ondas que se misturam e indefinem.
A palavra chorar nunca me amedrontou. Nem a palavra mágoa.
Não choro por nada que a vida me traga ou leve. Há no entanto momentos saudosos que me trazem melancolia. Sentimentos que nenhuma felicidade real me fará sentir, como nenhuma tristeza imitará antes da cortina fechar a peça, como o sopro que nos leva.
Não... Não é saudade desses tempos que tenho. É saudade daquele breve momento, é mágoa de não poder ter tudo outra vez pela primeira vez.
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A ti André...

Bati no portão do tempo perdido.
Ninguém mo abriu.
Bati a segunda vez.
E outra... e outra vez...
Nenhuma resposta obti.
Metade da casa estava coberta de hera
a outra metade estava voberta de cinzas.
Nela ainda algo vivia.
De lá ouvia brotar silêncio.
Mas era uma casa de ninguém...
Onde não morava ninguém...
Bati e chamei
com a ânsia de ser ouvida...
O eco devolveu toda a minha energia gasta.
Abriu á minha frente um caminho nunca percorrido,
passos gelados marcaram o solo quente.
A noite e o dia confundem-se
no eterno esperar
no eterno bater
no portão do tempo perdido.
Certamente não existe tempo perdido.
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Quinta-feira, Fevereiro 19

Traços 

Porque és tu que dás forma à felicidade.
Porque é no teu traçar que leio o caminho do destino.
Porque é na tua humidade que sinto o perfume delirante de todos os nossos pecados.
Porque é no teu corpo que desenho o amor, onde a minha boca principia a vida num murmúrio duma palavra tranquila e obscena como um motor humano.
Porque é na ausência do teu olhar que me sinto queimar em desejo, como um ser que não sabe intrepertar o mapa das tuas emoções.
Sinto a ânsia do momento chegar. A tua. A minha.
A respiração ofegante de corrermos um contra o outro. Um para o outro.
Apago-me viva na tua loucura erótica... Desfeita numa satisfação sagrada, divina.
Sim, acredito nas tuas mentiras e acredito neste erro fenomenal que é o amor, que é ter-te dentro de mim.
Dá-me a tua boca e não as tuas palavras...
Não as quero.
Quero apenas sentir o teu silêncio no meu corpo.
Quero sentir que te perdes na sanidade possuída.
Tenho os olhos fechados e sinto que o prazer não tem forma...
Fechados fabricamos uma lixeira existencial. Balbuciamos defeitos. Enganos. Purgamos imagens dolorosas que se repetem incessantemente.
Dispostos, sempre, a mentir um ao outro.
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Sexta-feira, Janeiro 16

Momentos 

Abro o mapa que me deste e assinálo um lugar perdido... Procuro outra alma que não a minha, outro rosto que não o meu, outra casa e língua que não a minha...
Fecho os olhos e deixo-me levar pelo vento que me esfria a face...
Lembro-me de quando trocava um sorriso por um insulto... Um olhar por um abraço... Hoje são apenas palavras... Palavras mudas que respiram dentro daquilo que criei.
Sinto o vento passar... Entro nele. Leve. Cintilante. E desapareço. Onde o medo toma a precariedade doutro corpo...
O medo. Esse grande medo que se confunde com a serenidade. Com a melancolia que me devora, que me invade a todo o momento.
Lembro-me de momentos doces. Em que o teu toque levava a minha inocência...
Agora não tenho vergonha de dizer que te quero. Que te olho como uma parte de algo meu e não tanto como um ser individual.
Derrama em mim tudo aquilo que não consegues dizer em voz alta... Vem... Pela aridez do meu corpo e possuí a minha alma nostálgica... Queima-me a fala. Não deixes que pronuncie palavra alguma. Chega de lamentos daquilo que já foi.
No fundo de mim existe um pouco de ti e de todos esses momentos... Lá guardo essa nossa imagem... É tempo de ta devolver...
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